Sabia que o coração de cada pessoa bate em uma velocidade única? Isso demonstra que não há uma escala de tempo universal sincronizando o funcionamento de todos os corpos. Cada um tem seu próprio ritmo e o momento do desfralde deve respeitar essa realidade.
Para algumas, esse processo costuma acontecer por volta dos dois anos; já para outras, só ao fim dos três anos.
E é importante ter em mente que, assim como outros ciclos do desenvolvimento da criança, o desfralde não segue um fluxo linear. Vai haver avanços e recuos, tal qual acontece no andar, no comer, no falar.
Acompanhe a leitura deste guia, minha amiga, e fique por dentro do passo a passo completo para fazer o desfralde do seu filho sem cometer grandes tropeços.
Preparação para o desfralde: como agir?
A preparação para o desfralde deve envolver uma série de questões, como:
- Analisar o desenvolvimento e o ritmo da criança;
- Verificar em que nível está o controle dos esfíncteres;
- Cultivar a paciência no acompanhamento desse processo, evitando pressões que podem atrapalhar a evolução da criança;
- Manter rotinas estáveis, com momentos tranquilos. Isso ajuda a criança a passar pelo ciclo do desfralde com mais confiança a serenidade;
- Atentar-se às necessidades individuais de aprendizagem da criança para ajustar o que for preciso e parabenizar por cada passo conquistado.
Vamos entender melhor cada etapa a seguir:
Observar os sinais de prontidão da criança
A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda iniciar o desfralde a partir dos 24 meses, quando a maturidade neurológica da criança contribui com o controle dos esfíncteres.
Esse controle depende de amadurecimento físico também, possibilitando que a criança perceba a chegada do xixi e do cocô e segure ambos até ir ao banheiro eliminá-los.
Entendido isso, é fundamental observar sinais de prontidão na criança para o desfralde, como por exemplo:
- Comunicação antecipada da vontade de fazer xixi ou cocô (“mamãe, quero fazer cocô”);
- Demonstração de desconforto quando a fralda está cheia (“mamãe, troca minha fralda”);
- Longos períodos com a fralda seca (acima de 2 horas);
- Entendimento de instruções simples sobre processos e interesse em realizar tarefas sozinho;
- Curiosidade pelo vaso sanitário ou pelo penico;
- Pedido para usar roupas íntimas;
- Rotina intestinal previsível, fazendo cocô em mais ou menos no mesmo horário todos os dias;
- Habilidades motoras mais desenvolvidas: caminha, senta, agacha, pula com os dois pés;
- Entendimento da conexão entre xixi/cocô e banheiro.
Aproveitar a curiosidade da criança em relação aos adultos para mostrar como se usa o vaso
Aprender por observação pode ser muito útil para o desenvolvimento infantil. E observar o pai, a mãe ou o irmão usando o vaso pode ajudar no processo de desfralde.
Esse olhar atento faz com que a criança entenda a função do banheiro, facilitando e naturalizando o desfralde.
A aprendizagem por imitação fortalece a autoconfiança da criança, otimizando a transição da fralda para o vaso ou penico.
Além disso, aproveitar a curiosidade da criança ajuda a prepará-la para entrar no ciclo do desfralde com tranquilidade.
Quando o familiar demonstrar à criança que o vaso é um lugar seguro, ela tende a ter maior aceitação da ideia de utilizá-lo para fazer xixi e cocô.
Incentivar a criança a observar, imitar e participar do ritual do banheiro deve se tornar um hábito leve e divertido.
Para cumpri-lo, vale a pena estabelecer horários, como depois das refeições e antes de dormir, de forma a introduzir a criança nessa nova etapa de desenvolvimento.
Comprar cuecas/calcinhas do personagem favorito da criança
Colocar, lado a lado, fralda e cueca/calcinha — estas com a estampa do personagem predileto da criança — pode tornar o desfralde um ciclo desejável, criando um vínculo afetivo com a nova fase de autonomia.
Com a peça íntima, a criança pode querer protegê-la, até mesmo devido a seu personagem preferido estar ali, o que estimula a consciência corporal e, de quebra, o controle dos esfíncteres.
A cueca/calcinha reforça o simbolismo da mudança de fase, evidenciando que a criança já não usa mais fralda e está mais autônoma.
Ao escolher a própria peça íntima, o pequeno se sente protagonista do novo ciclo e mais seguro para evoluir no desfralde.
Escolher a data para começar o desfralde
Percebendo que a criança está realmente preparada para o desfralde, conforme as características descritas até agora neste guia, escolher uma data para começar esse processo pode ser uma ótima estratégia.
O desfralde deve acontecer fora de períodos de grandes mudanças, como viagem, nascimento de irmãos, doenças e troca de escola, porque instabilidade pode ser um empecilho para a adaptação da criança.
O momento ideal para fazer o desfralde são dias mais tranquilos, com agenda previsível e controlada.
Isso possibilitará atenção plena dos cuidadores ao processo, observação das dificuldades de adaptação e resolução dos “acidentes” que surgirem.
Uma boa opção é iniciar o desfralde em um fim de semana ou em um feriado prolongado, por exemplo.
Esses períodos facilitam a presença de um adulto para acompanhar o processo, fazendo as intervenções necessárias e evitando interrupção no ciclo de aprendizagem e adaptação.
Ao escolher com critério a data para iniciar o desfralde, ele acontece sem muitos problemas, e com mais segurança.
Ler livros de desfralde com a criança
Antes de iniciar o desfralde (especialmente na véspera), ler livrinhos sobre o tema com a criança irá ajudar a prepará-la emocionalmente para a mudança que está por vir.
Ouvir histórias faz com que a criança se reconheça nos personagens e nas situações narradas e compreenda processos, medos e expectativas.
A leitura que o adulto faz para a criança cria um vínculo entre ambos e segurança por parte do pequeno, de forma que ele se sinta mais à vontade para o desfralde no dia seguinte ou nos dias que virão.
Quando o aprendizado inicia na história, a transição da fralda para o vaso sanitário ou o penico fica mais leve e conta com a participação consciente e o interesse da criança no processo.
Caso ela apresente resistência a ouvir a história, há também a opção de teatro de fantoches e vídeos educativos, por exemplo. Convém testar qual opção é mais bem-aceita.
Desfralde Diurno: como fazer?
Tranquilidade, tempo e disponibilidade (por parte do pai/mãe ou cuidador) são palavras de ordem no processo de desfralde diurno.
Durante o dia, a criança está mais alerta, o que facilita perceber os sinais do corpo e aprender a ir ao banheiro no momento adequado.
No dia, explique que agora ele/ela vai usar cueca/calcinha e que a fralda será só para dormir
Para marcar o início do desfralde diurno, explique à criança que, a partir de agora, ela vai usar calcinha/cueca durante o dia e a fralda, só à noite para dormir.
Nessa conversa, é essencial esclarecer ao pequeno que o corpo dele está crescendo e é preciso ficar atento a quando o xixi ou cocô querem sair, por exemplo, destacando que a calcinha/cueca ajuda a perceber essa necessidade.
Diga que a cueca/calcinha traz liberdade e amadurecimento e, se houver escapes, não tem problema. Afinal, aprender envolve tentativas, erros e acertos.
Mostre disponibilidade para ajudar no que for preciso, passando segurança e serenidade para enfrentar o processo.
Ao acordar, chame para ir ao banheiro e tire a fralda
Assim que a criança acordar, leve-a ao banheiro; isso irá ajudá-la a associar o despertar com o hábito de fazer xixi e cocô no vaso sanitário.
Além disso, como a bexiga costuma estar cheia quando acordamos, esvaziá-la irá reforçar na criança o sucesso do aprendizado.
Ao retirar a fralda assim que a criança acordar, fica claro para ela que o dia deve começar sem a fralda.
Para que ela não se sinta pressionada nem estressada, a retirada da fralda pela manhã deve ser tranquila e gentil.
Repetindo o desfralde matinal, o ritual reforça o controle corporal e a autonomia do pequeno.
Não coloque mais a fralda (para não confundir a criança)
Uma vez retirada a fralda pela manhã, evite colocar nova fralda na criança durante o dia para não gerar confusão sobre quando usar a fralda e o vaso sanitário ou penico.
Manter a criança no desfralde diurno reforça o aprendizado de que, durante o dia, o corpo deve ser ouvido quanto à necessidade de fazer xixi ou cocô e ela precisa ser resolvida no banheiro.
Ficar revezando entre fralda e calcinha/cueca pode, enfim, confundir a mente da criança, o que pode prejudicar e atrasar o processo de desfralde diurno.
Pergunte de tempos em tempos se ele/ela quer fazer xixi/cocô
Perguntar, a cada 20 ou 30 minutos minutos, se a criança está com vontade de fazer xixi ou cocô reforça a consciência corporal, prevenindo escapes e consolidando a autonomia no desfralde diurno.
Caso faça na roupa, explique que, quando der vontade, é só pedir para ir ao banheiro e então trocar a roupa
Se a criança fizer xixi/cocô na roupa durante o desfralde diurno, explique, com calma e sem pressioná-la, que, se der vontade, é só avisar que quer ir ao banheiro.
A troca de roupa deve ser feita com tranquilidade e sem repreensão.
Siga o processo pelos próximos dias
Para consolidar o desfralde diurno, é preciso repetir, nos dias seguintes ao primeiro desfralde, os passos abordados anteriormente.
Assim, a criança cria uma rotina previsível e reforça a consciência corporal com mais segurança e confiança.
Desfralde noturno: como proceder?
O desfralde noturno deve acontecer após o diurno já estar bem consolidado. Embora não haja uma idade-padrão para esse processo, ele ocorre geralmente entre 3 e 4 anos.
O ideal é que ele seja iniciado depois de a criança acordar com a fralda seca por várias manhãs consecutivas.
Confira abaixo outras medidas importantes para o desfralde noturno!
Não acorde a criança de madrugada para fazer xixi
Acordar a criança de madrugada para fazer xixi pode gerar um mau hábito.
O controle dos esfíncteres durante a noite depende da maturidade neurológica e interromper o sono da criança não ensina o corpo a fazer esse controle.
De quebra, essa interrupção pode gerar ansiedade e cansaço.
Evite exagerar nos líquidos durante a noite
Evite dar líquidos em excesso à criança ao menos duas horas antes de ela se deitar. Isso diminui a produção de xixi e permite conter a bexiga durante o sono.
Antes de dormir, é importante levar a criança ao banheiro também. Caso ela resista, você pode dizer: “Tudo bem. Se não tiver com vontade, não faz. Mas nós vamos tentar”. Na maioria das vezes a criança vai fazer, pelo menos um pouco, de xixi.
Previna-se contra acidentes noturnos
Por mais que toda a programação do desfralde noturno esteja sendo cumprida, uma hora é provável que aconteça um acidente, ou seja, a criança pode fazer xixi na roupa durante a noite.
Para se prevenir contra essa situação, encape o colchão com um protetor plástico e deixe uma muda de roupa por perto para o caso de a criança se molhar.
Ilumine o entorno do banheiro
O caminho até o banheiro deve ficar iluminado à noite a fim de que a criança consiga acessá-lo com facilidade nesse horário caso sinta vontade de fazer xixi ou cocô.
Certamente essa medida irá contribuir com o desfralde noturno.
Dicas extras para um desfralde gentil
No último tópico deste artigo, vamos apresentar dicas extras para que o processo de desfralde seja gentil e eficiente:
- Evite falar que usar fralda é coisa de bebê, pois isso pode gerar pressão psicológica, dificultando ainda mais o processo;
- Não exponha a criança na frente de familiares e amigos, dizendo que ela está passando pelo desfralde, afinal, esse tipo de fala pode gerar constrangimento;
- Se houver escapes, não deboche, nem ria da situação, pois isso pode gerar na criança insegurança e medo de errar;
- Caso a criança demonstre medo do vaso sanitário, dê apoio a ela, acolhendo-a física e psicologicamente. Você pode distraí-la enquanto ela está no vaso, contando uma história, para que ela perceba que não há perigo em usar o vaso;
- Caso necessário, recue no processo do desfralde para que os avanços aconteçam no tempo da criança.
Se você acompanhou a leitura de todo o guia, pôde notar o quanto o tema desfralde é cheio de desdobramentos. Para se aprofundar ainda mais no assunto, convidamos a conhecer A Turma do Penico, um livro infantil que traz humor e acolhimento, além de um guia prático para cuidadores, com base.



